Obama elogia democracia no Brasil e diz que esse é o caminho para salvar a Líbia

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RIO – Antes marcada para o início do domingo, a visita ao Cristo Redentor tornou-se o último evento da agenda no Brasil do presidente americano Barack Obama. Alvo de ataques de seus opositores, dentro e fora dos EUA, o presidente americano encontrou abrigo no Cristo e na tolerância religiosa que marca a cultura brasileira. O homem mais poderoso do mundo se tornou pequeno – a 700 metros de altura, cercado pelas nuvens trazidas pelo vento sudoeste. Sob a estátua de 38 metros, Barack Obama se transformou em mais um turista a contemplar a beleza ao redor.

O presidente americano, a primeira-dama, Michelle Obama, e as duas filhas do casal, Malia e Sasha, chegaram ao Cristo Redentor às 21h, sob um forte esquema de segurança. Uma comitiva de 40 pessoas acompanhava Obama, que chegou de carro ao local.

A admiração pelo ponto turístico mais famoso do Rio era evidente: toda a comitiva sacou câmeras para fazer fotografias. Durante a visita da família Obama, uma forte neblina e o vento tomaram conta do monumento.

Mas o ponto alto da visita ao Rio no domingo foi o discurso de Obama para uma plateia de cerca de 2.200 convidados, no Theatro Municipal, em que elogiou a democracia brasileira. Ele falou sobre o delicado momento que vive o Oriente Médio, com uma guerra deflagrada na Líbia. Ao fim de sua fala, ele foi aplaudido de pé. O presidente também citou a presidente Dilma Rousseff como um exemplo de pessoa que sabe superar dificuldades.

– O Brasil é um país que mostra como exigir uma mudança pode começar numa rua e transformar uma cidade, um país, o mundo. Um dos jovens mudou isso: filha de imigrantes, foi presa, mas ela sabe o que é superar, hoje ela é presidente desta nação – afirmou.

” O Brasil é um país que mostra como exigir uma mudança pode começar numa rua e transformar uma cidade, um país, o mundo ”

O presidente americano disse ainda que embora Brasil e EUA enfrentem muitos desafios, há esperança.

– Mas os homens e mulheres que viveram antes de nós conseguiram – afirmou.

Jorge Ben, Paulo Coelho e futebol

Ele iniciou sua fala desejando em português uma boa tarde a todos os brasileiros.

– Alô, Rio de Janeiro – disse, para, em seguida, mencionar o clássico Vasco x Botafogo. Recebeu vaias e logo sorriu, dizendo que sabe que o futebol é um assunto muito sério no país.

Ele também citou Jorge Ben Jor, ao dizer que o Brasil é uma país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza.

Obama disse que a transição para a democracia no Brasil serve como exemplo para países do Oriente Médio, onde os manifestantes estão pressionando por mais liberdade política. Ele lembrou a ditadura militar brasileira e alertou para a mudança que começa nas ruas e pode transformar um país. Com sua economia em expansão, Obama diz que o Brasil demonstra que as democracias oferecem liberdade e oportunidade para o seu povo.

– Nós temos visto o povo da Líbia tomar uma posição corajosa contra um regime determinado para hostilizar seus próprios cidadãos. Em toda a região, temos visto jovens levantar uma nova geração exigindo o direito de determinar seu próprio futuro – disse o presidente.

” Os Estados Unidos e o Brasil sabem que o futuro do mundo árabe será determinado pelo seu povo ”

– Desde o início, deixamos claro que a mudança que procuram deve ser conduzida por seu próprio povo. Mas, como duas nações que lutaram por muitas gerações para aperfeiçoar nossas próprias democracias, os Estados Unidos e o Brasil sabem que o futuro do mundo árabe será determinado pelo seu povo.

A banda Afroreggae, que este ano completa 18 anos, se apresentou para os convidados, com um repertório de músicas brasileiras e internacionais. O grupo se formou na Favela de Vigário Geral, após chacina de 21 moradores.

Inicialmente, o discurso de Obama estava marcado para as 14h, mas acabou começando às 14h50m. Do lado de fora do teatro, cerca de 300 pessoas aguardavam a chegada dele. Muitos usam fantasias, como a do palhaço e deputado federal Tiririca, da Mulher Maravilha e de um sósia do presidente americano.

No discurso de pouco mais de 15 minutos, com o texto improvisado, o presidente citou o escritor Paulo Coelho. “Como diz o Paulo Coelho, com a força da nossa vontade e amor, podemos mudar”, afirmou, arrancando aplausos entusiasmados da plateia.
Barack Obama em seu discurso no Theatro Municipal do Rio. Foto: Ivo GonzalezEntre os convidados, estavam políticos, como Miro Teixeira (PDT-RJ) e Eduardo Cunha (PDMB-RJ), além de vários deputados estaduais como o presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), Paulo Melo. Também estiveram presentes artistas como a cantora Alcione, servidores públicos da prefeitura e do estado e de jovens do projeto Criança Esperança. O motorista Rinaldo Gaudêncio, sósia de Obama, conseguiu um convite e entrou no teatro. Ele passou pelo controle da portaria com dois amigos que fazem às vezes de segurança presidencial conhecidos como Jack e Bauer.

Entre os presentes, o sentimento geral foi de simpatia às palavras de Obama. Existiram algumas ressalvas.

A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, uma das convidadas para o evento no Theatro Municipal, considerou a fala do presidente “abrangente”, mas sentiu falta de uma discussão ambiental.

” Imaginava que ele pudesse dar uma ênfase nas responsabilidades que temos com as gerações presentes e as futuras gerações ”

– Imaginava que ele pudesse dar uma ênfase nas responsabilidades que temos com as gerações presentes e as futuras gerações – afirmou ela.

Marina acrescentou que “a questão das energias renováveis são importantes, mas se não forem aprofundadas as questões de agir, produzir e consumir… acho que perde a potência da necessidade de transformação do modelo de desenvolvimento”

O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) elogiou o discurso de Obama, mas esperava que o presidente dos Estados Unidos mencionasse o fim do embargo econômico a Cuba.

– Talvez faça isso no Chile, por haver uma proximidade maior entre as línguas dos dois países – disse.

O forte esquema de segurança na porta do teatro, além dos detectores de metais, incluiu cães farejadores e tanques de Exército, cavalaria da Polícia Militar. O público foi isolado num raio de 200 metros.

Do lado de fora do Theatro Municipal, na praça da Cinelândia, pequenos grupos fizeram protestos pacíficos contra sua presença.

Portando bandeiras vermelhas de partidos políticos como PCdoB, PSTU e do PT, os manifestantes vaiaram quando a comitiva do presidente chegou ao teatro.

Obama, no entanto, usou um acesso lateral sem visão do público para entrar e sair do local, que teve seu entorno isolado por militares armados do Exército.

Obama e sua família devem deixar o Rio na manhã de segunda-feira, quando partem para o Chile e, dias depois, a El Salvador.

– 20/03/2011

Obama cita futebol e Jorge Ben Jor na abertura do discurso

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O presidente americano, Barack Obama, começou o aguardado discurso ao povo brasileiro falando em português.

– Boa tarde a todo o povo brasileiro. Oi, Rio de Janeiro, cidade maravilhosa!

Obama agradeceu aos presentes por estarem no Theatro Municipal, no Rio, em uma tarde de clássico na cidade – Vasco e Botafogo jogam pelo campeonato carioca.

Depois, citou Jorge Ben Jor para elogiar o país.

– Vocês, como cantou Jorge Ben Jor, são um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza.

– 20/03/2011

Após citação em discurso de Obama, Ben Jor e Paulo Coelho comentam no Twitter

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O cantor Jorge Ben Jor e o escritor Paulo Coelho escolheram o Twitter para comentar as citações feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, durante o discurso no Theatro Municipal, no Centro do Rio, neste domingo.

Bem Jor agradeceu ao norte-americano e mandou um abraço para Obama.

“Um grande abraço para o Presidente Obama! Fui mencionado hoje no discurso, salve”, postou o cantor no microblog. O presidente lembrou o trecho da música “País tropical” ao comentar as belezas naturais brasileiras.

“Vocês são, como cantor Jorge Ben Jor diz, ‘um país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza”, destacou Obama para uma plateia de cerca de duas mil pessoas.

Já no final do pronunciamento, Obama citou trecho da obra “As Valkirias” do escritor Paulo Coelho.

“Acreditamos nas palavras de Paulo Coelho, um de seus mais famosos escritores, que com a força de nosso amor e nossa vontade, podemos mudar nosso destino. E também o destino de muitos outros”, disse o presidente.

No Twitter, o escritor postou: “Presidente Obama me cita no discurso do Municipal” . Ele ainda incluiu um link para o vídeo do discurso.

– 21/03/2011

Brasil apontado como exemplo

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Obama disse que a transição democrática alcançada no Brasil pode servir de exemplo para nações do Oriente Médio

São Paulo. Em discurso bem-humorado, com frases em português e citações sobre o Brasil, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou no Rio de Janeiro que a transição feita pelo Brasil da ditadura para a democracia é um modelo para o mundo árabe. O líder estadunidense disse ainda que deseja “fortalecer a amizade” dos EUA com o país.

Falando a uma plateia de mais de duas mil pessoas no Theatro Municipal do Rio, Obama disse que “a transição para a democracia no Brasil nos anos 1980 pode servir de exemplo às nações do Oriente Médio”.

Um dia após a coalizão dos EUA, França, Grã-Bretanha, Canadá e Itália atacarem a Líbia, Obama falou sobre o país governado por Muammar Kadafi há 41 anos. “Temos visto o povo da Líbia assumir uma corajosa posição contra um regime determinado a brutalizar seus próprios cidadãos”, disse.

Para Obama, o Brasil mostrou que a ditadura pode se transformar em uma “vibrante democracia” e levar “liberdade e oportunidades ao povo”.

Economia poderosa

O presidente americano afirmou ainda que o Brasil emergiu de décadas de mau desempenho para se tornar uma economia poderosa que tem muitos valores em comum com os EUA.

De acordo com ele, uma antiga piada de que o Brasil seria sempre um “país do futuro” não é mais verdadeira. “Para o povo do Brasil, o futuro chegou”, afirmou, sendo seguido de calorosos aplausos da plateia.

Como no sábado, Obama citou as áreas em que Brasil e EUA têm parceria e que elas poderiam ser reforçadas. Isso inclui os setores de energia limpa, cooperação científica e tecnologia.

O presidente também comentou sobre a maior comunidade japonesa fora do Japão que vive em São Paulo para pregar ajuda do Brasil aos japoneses na sua hora de maior necessidade, uma referência ao terremoto seguido de tsunami registrado no último dia 11 de março que já deixou mais de 7.000 mortos no país asiático.

Carisma

No pronunciamento, ele também falou de futebol, de democracia, citou o escritor Paulo Coelho e trecho de musica de Jorge Ben Jor. Obama disse estar triste por Chicago não ter sido escolhida para as Olímpiadas de 2016, mas que apoiaria 100% a realização dos jogos olímpicos no Rio. Ele citou também a história de superação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O presidente americano iniciou sua fala falando em português: “Alô”, “Cidade Maravilhosa” e “todo povo brasileiro” para conquistar a plateia. Em meio a elogios ao Brasil, afirmou: “Como disse o cantor, o Brasil é um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”, em referência a Jorge Ben Jor.

Semelhanças

Obama disse que Brasil e EUA têm cultura e história parecidas, incluindo a luta contra poderes coloniais e seus povos multiculturais. “Nos tornamos colônias reclamadas por reinos distantes, mas rapidamente declaramos nossa independência. Acolhemos ondas de imigrantes em nossas costas, e eventualmente limpamos a mancha da escravidão de nossa terra”, comparou. O discurso estava previsto para ocorrer na Cinelândia, em local aberto. No entanto, foi transferido na sexta-feira para o interior do Theatro Municipal.

ESPECIALISTAS ANALISAM

Discurso foi interessante, mas não trouxe surpresas

Rio de Janeiro. O discurso de Barack Obama no Rio “foi interessante”, mas não trouxe nada de surpreendente, analisou o professor de história da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Victor Melo.

Melo disse que o discurso pode significar para os dois países um momento novo de relacionamento no cenário internacional. Seria “um certo realinhamento das prioridades”.

O professor da UFRJ avaliou, porém, como “protocolar” o discurso de Obama. “Achei interessante, mas nada entusiasmante”, completou.

Para o especialista em Relações Internacionais, o americano Ryan Hemming, o discurso do presidente reforçou a intenção da Casa Branca de estreitar laços com o Brasil. O especialista também destacou o fato de Obama ter ressaltado as semelhanças entre Brasil e EUA na luta pacífica pela democracia.

Políticos

A visita do presidente foi elogiada por oposicionistas e governistas. A ausência do ex-presidente Lula na recepção a Obama, em Brasília, também recebeu elogios dos dois lados. Para parlamentares, foi um gesto de respeito à gestão de Dilma Rousseff.

“O Brasil ganha com isso (visita de Obama) porque fortalece a imagem do país no exterior. As potencialidades do Brasil são ressaltadas ao mundo”, afirmou ontem o líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR). Segundo ele, os efeitos imediatos são uma propaganda positiva do País no exterior.

Para o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), “a visita mostra o respeito e a importância que o Brasil tem hoje no mundo. É uma marca importante da Dilma”.

“MOMENTO INOPORTUNO”

Nos EUA, mídia faz críticas à visita

Brasília. Os principais veículos de comunicação dos Estados Unidos avaliaram ontem como inoportuna a viagem do presidente Barack Obama ao Brasil. Um dos argumentos usados foi a abstenção do Brasil na votação, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, sobre a resolução que cria uma zona de exclusão aérea na Líbia e permite uma intervenção contra tropas de Muammar Kadafi – posição contrária à dos EUA.

São muitos os motivos para melhorar as ligações com o Brasil, segundo os jornais, apesar de Obama não atender aos dois grandes desejos dos brasileiros: um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas e a retirada de taxas à importação do etanol.

O jornal Washington Post avaliou a viagem como controversa. Já a rede de TV CNN classificou a viagem de Obama de awkward, ou seja, inábil.

Para o canal de TV FoxNews, a viagem é uma espécie de férias e uma tentativa de fugir dos problemas internos. No jornal New York Times, o apoio de Obama ao pedido do Brasil de um assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) foi considerado “modesto”.

A mídia dos E UA manifestou descontentamento com o fato de os presidentes Obama e Dilma Rousseff terem se recusado a responder perguntas da imprensa. Os jornais elogiaram, no entanto, a franqueza de Dilma nas críticas à política americana de dólares baratos, barreiras comerciais e subsídios.
– 21/03/2011

Obama propõe que EUA e Brasil sejam “parceiros igualitários”

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Em discurso de 15 minutos proferido diante de 2.200 convidados no Theatro Municipal do Rio, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, declarou ontem o interesse de seu país em construir uma parceria igualitária com o Brasil.

“Quando vocês confrontam os muitos desafios que ainda têm dentro e fora do país, vamos ficar juntos, não como parceiros sênior e júnior, mas como parceiros igualitários”, propôs.

“Nossas nações enfrentam muitos desafios. Na estrada à frente, encontraremos muitos obstáculos. Juntos, podemos avançar em nossa prosperidade comum”, afirmou Barack Obama citando o comércio e a segurança energética numa referência aos avanços brasileiros com biocombustíveis e petróleo.

O presidente norte-americano elogiou a ascensão do Brasil à posição de potência mundial democrática. Disse que o Brasil emergiu de décadas de desempenho econômico pobre para se tornar uma economia poderosa e uma democracia próspera. E, ao lembrar a ditadura militar do período 1964-1985, acentuou que a transição para a democracia no Brasil serve como exemplo para países do Oriente Médio, onde os manifestantes estão pressionando por mais liberdade política.

“O Brasil é um país que mostra como exigir uma mudança pode começar numa rua e transformar uma cidade, um país, o mundo. Um dos jovens mudou isso: filha de imigrantes, foi presa, mas sabe o que é superar e hoje é presidente desta nação“, afirmou Obama ao citar a presidente Dilma Rousseff como exemplo de pessoa que sabe superar dificuldades.
Barack Obama iniciou seu pronunciamento desejando, em português, boa tarde a todos os brasileiros.

“Alô, Rio de Janeiro!” saudou para, em seguida, mencionar o clássico Vasco x Botafogo. Recebeu algumas vaias e reagiu sorrindo. Disse que sabe que o futebol é um assunto muito sério aqui. Ele citou o compositor Jorge Ben Jor ao dizer que o Brasil é um país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza. E citou também o escritor Paulo Coelho.

“Como diz Paulo Coelho, com a força da nossa vontade e amor, podemos mudar”, afirmou arrancando aplausos da plateia.

A banda Afroreggae, formada há 18 anos depois de uma chacina de 21 moradores na favela Vigário Geral, se apresentou com um repertório nacional e internacional.

Pela manhã, Obama e a família visitaram durante meia hora a favela Cidade de Deus. No discurso da tarde, ele elogiou o trabalho de pacificação nas favelas.

“A esperança está voltando para o lugar onde o medo costumava reinar. As pessoas não devem olhar apenas com piedade para as favelas, mas como uma fonte de médicos, advogados, pessoas que vão apresentar solução”.

Enquanto Barack Obama discursava no teatro, Michelle Obama conhecia a Cidade do Samba. À noite, o casal e as filhas, Malia e Sasha, encerraram a programação no Brasil visitando a estátua do Cristo Redentor. (com Agências)

– 21/03/2011

No Theatro Municipal, Obama cheio de graça

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Demonstrando ótimo humor e uma assessoria ainda melhor, o presidente americano Barack Obama iniciou seu discurso no Theatro Municipal do Rio de Janeiro ensaiando algumas palavras em português e fazendo graça com o fato de ter marcado o pronunciamento para 2.200 mil convidados quase no mesmo horário do clássico do futebol carioca entre Vasco e Botafogo. “Oi Rio de Janeiro. Alô, cidade maravilhosa! Boa tarde todo o povo brasileiro”, iniciou, com o português carregado de sotaque. ”Peço desculpas a vocês, porque sei que aqui no Brasil vocês levam os assuntos de futebol muito a sério”, afirmou, arrancando risos da plateia.

Obama agradeceu o calor e a receptividade do povo brasileiro durante a visita que começou em Brasília, no último sábado. E citou o cantor Jorge Ben Jor para dizer que o Brasil, ao vivo, é mais bonito do que nos filmes. “É uma país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”, brincou.

O discurso foi direcionado especialmente para os brasileiros. Obama citou a pacificação nos morros cariocas, elogiou a mudança de atitude com relação aos moradores das favelas e enalteceu a papel do Brasil no cenário mundial. ”O Brasil não é mais o país do futuro. O futuro já chegou e é agora”, afirmou sob aplausos no Theatro Municipal. “Estou aqui para dizer que nós, nos EUA, não apenas observamos seus sucessos, mas torcemos por ele. Juntos, duas das maiores economias do mundo podem trazer crescimentos.”

– 21/03/2011

Paulo Coelho, Jorge Ben Jor e Luciano Huck comentam discurso de Obama no Twitter

Assim que terminou o discurso do presidente americano Barack Obama no Theatro Municipal do Rio de Janeiro autoridades e artistas foram ao Twitter para manifestar suas impressões. O escritor Paulo Coelho e o músico Jorge Ben Jor, por exemplo, comentaram o fato de terem sido citados por Obama durante sua fala.

— Um grande abraço para o Presidente Obama! Fui mencionado hoje no discurso, Salve! — escreveu Ben Jor.

Logo no início do discurso, Obama citou um trecho da música “País Tropical”, ao falar sobre a impressão que teve do país.

— Eu jamais imaginaria que este país seria ainda mais bonito do que no filme (referindo-se a “Orfeu negro”). Vocês são, como cantor Jorge Benjor diz, “um país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza”.
– 21/03/2011

Presidente repete fórmula bem-sucedida na campanha eleitoral e satisfaz público que lotou o Municipal

RIO – Ele mudou pouco desde a época em que fazia campanha e empolgava as massas nos Estados Unidos, com a sua promessa de um mundo melhor. Quase três anos depois, já desgastado por um governo impopular e iniciando uma nova guerra, Barack Obama mostrou que ainda tem o charme de um rock star e o talento de um encantador de serpentes, ao discursar para um público vip no Theatro Municipal do Rio, salpicado por representantes do movimento negro e de frequentadores de projetos sociais.

Vestido com a sua clássica camisa branca engomada e sem gravata, um pouco mais magro e com seu eterno sorriso, ele deixou em todos a sensação de que sua passagem por ali era um momento histórico.

— Não dava para perder isso — exclamou o diretor da Editora Objetiva, Bob Feith, repetindo as palavras ditas um pouco mais cedo pela cantora Alcione.

O pessoal adorou. De Henrique Meirelles, a nova autoridade olímpica, a Abdias do Nascimento, o decano do movimento negro, passando pelo senador Eduardo Suplicy e por Jaciara da Silva, do grupo da terceira idade de Bangu. A ex-candidata Marina Silva criticou a falta de ênfase a medidas contra o aquecimento global, e o presidente do Olodum, João Jorge, reclamou que ele não deu um apoio explícito à ambição brasileira de ter um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU. Mas, ressalvas à parte, todos se renderam ao carisma de Obama.

O discurso do presidente parecia feito sob medida para os cariocas, e era. “ Alô, Cidade Maravilhosa, boa tarde para todo o povo brasileiro”, gritou ao entrar no palco saudando uma ou outra pessoa da plateia. Os gestos e palavras de Obama, que soaram originais e graciosamente espontâneos, na verdade seguiam uma fórmula, repetida milhares de vezes, na campanha de 2008, no palanque de grandes cidades ou em pequenos auditórios, sejam eles nos Estados Unidos ou no Brasil. Disciplinado, Obama mantém um controle absoluto de sua imagem. Parece que improvisa mas repete sempre a mesma mensagem, recheada de referências locais —- a cidade abençoada por Deus, de Jorge Ben Jor, ou o bolo de laranja de Kansas City — e, inevitavelmente, relembra as suas raízes multiculturais que fazem dele um símbolo do sonho americano.

“O Rio é ainda mais bonito do que no filme que a minha mãe viu”, disse, contando de novo a história de que “Orfeu Negro” foi inspiração para a mãe se apaixonar pelo seu pai, um negro do Quênia. “Ela jamais poderia imaginar que eu viria aqui pela primeira vez como presidente da América.”

— Ele é inspirador, sinto como se tivesse aprendido uma lição — disse Júnior, do AfroReggae, um dos responsáveis por povoar com rostos das comunidades cariocas o templo da elite carioca.

Obama foi puro charme ao dizer para os cariocas que voltará ao Rio nas Olimpíadas de 2016 e elogiar a ação da prefeitura e do governo do estado na favela que acabara de visitar.

“As pessoas têm que ver as favelas não com pena mas como fonte de engenheiros, advogados, médicos com soluções globais para o Brasil”, disse, para alegria do governador Sergio Cabral e do prefeito, Eduardo Paes, que junto com o embaixador brasileiro em Washington, Mauro Vieira, assistiam ao discurso de camarote. Um pouco mais atrás, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, era só sorrisos.

— Ele tocou nas questões mais importantes da alma brasileira — disse Abdias do Nascimento.

Foi na trajetória de Lula e Dilma, de luta pela liberdade e de uma vida melhor, que Obama foi buscar os exemplos de “yes, we can”.

— No fim e no fundo, é a nossa história que nos dá a esperança de um mundo melhor — afirmou.

Mas “o cara”, que mais uma vez deixou a plateia em êxtase com suas palavras de esperança, cometeu um único engano, ao citar o escritor errado para concluir sua mensagem: “É por isso que acreditamos nas palavras do Paulo Coelho: com a força do nosso amor e vontade, podemos mudar nosso destino”, disse.

A sofisticada plateia recebeu com frieza a frase do mago, mesmo ao ser reforçada pelo político mais midiático do planeta. Mas, depois do “muito obrigado ” de Obama, todos estavam contentes e enlevados, como na saída de um grande espetáculo.

Helena Celestino – 21/03/2011

Gil & Jorge

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Gilberto Gil
em Gilberto Gil: Expresso 2222 / org. Antonio Risé

Gilberto Gil discorre sobre a importância de Jorge Ben Jor, numa entrevista concedida a Marco Aurélio Luz, em 1977.

(…)
A primeira vez que você tocou com Jorge Ben foi nas Semanas Afro-brasileiras?

Em, público, foi a primeira vez. Foi um momento em que houve um reconhecimento de “parentesco”, uma constatação da matriz, digamos, de uma matriz única. Foi ali que se criou essa consciência. Nem tanto para mim ou para ele, que já sabíamos, mas em termos de um consenso de de que Gil e Jorge têm coisas em comum. Daí surgiu o disco em que atuamos juntos. O nome dos dois orixás, Xangô e Ogum, colocados no disco, tem muito a ver com aquele encontro das Semanas Afro-brasileiras no MAM, que ficou como um signo de identificação do nosso trabalho. Não se pode dizer que foi exatamente ali que se revelou isso ou aquilo, mas que foi um encontro revelador eu não tenho dúvida.

Ali houve uma polarização do aspecto negro. E dentro disso, como você vê a música do Jorge?

Eu vejo a música do Jorge como a que mantem elementos mais nítidos da complexidade negra na formação da música brasileira. Modos musicais diferentes vieram para o Brasil através de várias nações africanas. Jorge assume o que veio do norte da África, o muçulmano, como elemento básico do seu trabalho. Ele não gosta de perder a perspectiva primitivista, não deixa de se ligar no gege, ketu, iorubá. Mas ele tem um outro lado que inclui o moderno.

Muita coisa assim de espírito de Rio de Janeiro, certo?

Um Rio complexo, uma negritude carioca. Eu diria que a escola de samba, por exemplo, é uma coisa mais simplificada do que a música de Jorge Ben. Sua música é muito mais complexa em termos de integralidade negra, mais do que o chamado samba-enredo, que se estabeleceu como um clichê de escola de samba. Os elementos da música de Jorge são muito diversos e isso é bem descrito em “Zumbi”, quando ele fala das diversas nações, convocando Angola, Congo, como num discurso messiânico. Ele tem consciência de uma integralidade e sua complexidade decorre daí e vice-versa.

Eu acho “Charles 45” um motivo bem carioca…

É, ao mesmo tempo ele é um garoto carioca da atualidade de escola de samba. Mas o que o distingue dos outros sambistas é a consciência de uma complexidade negra, a manutenção na música de nítidas diferenciações de elementos. Assim, ele compõe baseado em vários ritmos especificamente negros, e compõe samba, mas diferente da maioria dos compositores de escola de samba, que produzem uma música cultivada na escola, um híbrido já todo pronto sem nenhuma das diferenciações elementares dos ritmos básicos. O Jorge consegue essa elementariedade e denomina as diversas escolas negras.
(…)
Essa aproximação com Jorge Ben lhe trouxe uma indicação de trabalho?

É, Jorge Ben é para mim uma espécie de mestre. Eu tenho muitos mestres mas ele é um mestre em exercício, mais um pai talvez, à medida que existe muito dele nessa minha vontade de dar nitidez aos matizes das matrizes negras do meu trabalho. Isso aparece nos meus shows quando eu improviso. Um lado assim preto velho que está no meu mundo… minha vó, tias velhas, meu pai. Um vocabulário onde entram palavras nagôs, ditas com aquela guturalidade negra na voz. Fica assim como um reencontro com a minha formação mais primária.
(…)

Jorge esquema novo

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Caetano Veloso
Em Verdade Tropical / Caetano Veloso; São Paulo: C

Caetano Veloso fala sobre a importância de Jorge Ben Jor, em seu livro de memórias “Verdade Tropical”.

(…)
Uma gravação de Jorge Ben capsulava todas as nossas ambições. Era “Si manda”, um híbrido de baião e marcha-funk, cantado e tocado com uma violência saudável e uma natural modernidade pop que nos enchiam de entusiasmo e inveja. Não é que Jorge Ben criasse fusões, tampouco pode-se dizer que ele tenha passado da bossa nova para o rhythm&blues. Sua originalidade, quando apareceu com sua versão do samba moderno (Samba esquema novo), nascia justamente de ele tocar o violão como quem tivesse se adestrado ouvindo guitarras de rock e música negra americana. E em parte havia sido de fato assim. (Ele mais ou menos participara da turma de amantes do rock que reunia Erasmo Carlos, Roberto Carlos e Tim Maia, nos bairros cariocas da Tijuca e do Méier.) A imediata tematização da negritude – que, em Salvador, impressionou Gil tão mais fortemente porque este sempre evitara fazê-lo em qualquer nível – se traduzia na batida do violão e no fraseado meio afro, meio blues, mais do que em eventuais vocábulos africanos ou pseudo-africanos e referências explícitas à experiêncoia negra nas letras. O que ele fazia agora era um uso da guitarra elétrica que ao mesmo tempo o aproximava dos blues e rock e revelava melhor a essência do samba tal como ela podia manifestar-se nele. O que estivera latente na fase inicial se explicitava e aprofundava nessa fase de degredo na Jovem Guarda. Sendo carioca, e dos mais arraigadamente característicos, Jorge Ben exilara-se em São Paulo por vários anos. O noivado com a bela paulistana Domingas poderia explicar parte dessa decisão, mas nitidamente havia a motivação do desprestígio em que caíra, no Rio e, portanto, no Brasil em geral. São Paulo era um campo vasto e neutro onde sucessos parciais e setorizados, que não dependiam da adesão nacional, eram possíveis. Mas o que nos atraía eram menos as misturas estilísticas que ocorriam nele do que a atmosfera de alegria física genuína que sua presença no panorama da música brasileira instaurava. Saúde era a palavra que mais nos vinha aos lábios quando falávamos nele. Essa já se tornara e permaneceria uma palavra-chave para nós em julgamentos e apreciações. (…) Saúde era o que exalava da figura, do timbre, das idéias de Jorge Ben. A própria atração pela cena pop norte-americana (e o culto que lhe renderam ingleses criadores do neo-rock dos anos 60) era apenas um dos elementos que, nessa viragem tropicalista, tínhamos deixado de desprezar como “vulgares” para cultuarmos como “saudáveis”.
“Si manda” , com sua agressividade alegre (é uma letra de mandar embora a mulher que “vacilou”, sumariamente e sem culpa) e sua musicalidade deixando à mostra traços crus de samba de morro e blues numa composição de exterioridades nordestinas, era a encarnação dos nossos sonhos. Parecia-me que a minha “Tropicália” era mera teoria, em comparação. Uma tentativa de tratado sobre aquilo de que “Se manda” era um exemplo feliz. Jorge Ben, sem criar uma “fusão” artificiosa e homogeneizante, apresentava um som de marca forte, original, pegando o corpo de questões que nos interessava atacar, pelo outro extremo, o do tratamento final, enquanto nós chegávamos a soluções variadas e tateantemente incompletas nesse campo. Gil e eu elegemos a faixa “Si manda” por ser, nesse sentido, extraordinariamente bem-sucedida, também porque as características nordestinas a aproximavam de nós, baianos, mas o que foi dito aqui sobre essa gravação se aplica a todo o LP O Bidú, em que ela se encontra, e a todo o trabalho de Jorge Ben do final dos anos 60. Jorge se tornou um símbolo, um mito e um mestre para nós. Gil, que o amara irrestritamente desde o início, tomou seus procedimentos musicais de então como uma das fontes principais de inspiração para suas buscas no violão e nos arranjos; e eu, que desde aquela época repetdas vezes imitei alguma coisa do seu jeito de fazer poesia e de cantar (tendo gravado um bom número de suas canções), uma vez escrevi que, se nós, tropicalistas, tínhamos, em nosso afã de pôr as entranhas do Brasil para for a, efetuado “uma descida aos infernos”, “o artista Jorge Ben Jor é o homem que habita o país utópico trans-histórico que temos o dever de construir e que vive em nós”.