Jorge sobre Jorge

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Jorge Mautner
em Em Mitologia do Kaos – v. 2, Jorge Mautner – Ri

O poeta e músico Jorge Mautner filosofando sobre Jorge Ben Jor, em seus “Panfletos da Nova Era”, de 1980.
Jorge Ben, alquimista, sábio, que sabe ser a mitologia negra em igual valor-poder-potência-qualidade-relevância à mitologia dos Antigos helenos que em vão a Alemanha e toda a Europa tentaram imitar. (…)

Jorge Ben e seu Flamengo, seu futebol, suas mulheres com nomes de flores, sua mitologia absolutamente popular, urbana & cósmica, sensual e ideogrâmica “chove chuva, chove sem parar”. Um paradoxo harmonizado: revolucionário e machista!

Sorridente como todos os superiores crânios, da cultura negra do País de cultura nascente, é um tranquilo navegador de oceanos por vezes hostis (como quando de seus inúmeros boicotes por parte desta mesma inteligentzia (burrítzia?) nacional na época da jovem guarda, etc.). Sua imediaticidade direta ideogrâmica ao invés de ser estudada e respeitada foi ridicularizada como “oportunismo”, evidente projeção destes colonizados e complexados escribas acadêmicos para cima de Jorge.

Sábio, naturalmente participante desta cultura nova equivocadamente batizada pelos inimigos de “inferior” “primitiva” “oportunista” “superficial”, sempre confiou em sua intuição soberana. Já intuiu há tempos atrás o soul music, o disco, e foi um dos primeiros a sincretizar o rock, mais do que Roberto Carlos ou Erasmo, em sua definitiva e profunda aparição nacional contemporânea. Por vezes exagerado em sua facilidade de comunicação imediata com os mitos e atmosferas da nação jamais porém deixou de ser autêntico. Sabedoria malandra e filosófica, integrado e simultaneamente à parte do todo de sua classe artística, é hoje ainda, um dos pioneiros, mesmo que, ao contrário de Gil, sua novidade nunca se apresente como inclusão de dados novos e reatualizados, mas sim como aquela novidade eterna da repetição do batuque da eterna alegria que diz sim ao próprio não, Gil e Caetano são além-dialéticos, Einsteinianos, Heraclitianos, Jorge Ben é Parmênides, mas como já nos ensina Heidegger e nos ensinam Cae e Gil e Jorge Ben, Parmênides que diz tudo estar parado é igual a Heráclito que afirma tudo estar em movimento.

DISCO DE INÉDITAS E RELANÇAMENTOS DE JORGE BEN JOR

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Entre 1978 e 1986, período em que foi contratado da Som Livre, Jorge Benjor – que ainda assinava Jorge Ben – deixou nos arquivos da gravadora, na Rua Assunção 443, algumas preciosidades inacabadas. Duas décadas depois, esse tesouro ressurge em “Recuerdos de Asunción 443”. Com exceção de de “Falsa Magra”, gravada pelo sambista Branca Di Neve em 1987, e “Heavy Samba”, lançada com o título de “Um Poeta Amigo Meu” por Leci Brandão em 1989, todas as outras composições são inéditas e foram retrabalhadas em estúdio por Benjor, que encara o projeto como um disco novo. “São poesias urbanas e suburbanas dançantes, que dão prosseguimento ao que venho fazendo em minha carreira”, define. Paralelamente ao projeto de inéditas, a Som Livre relança, pela primeira vez em CD, remasterizados, três dos sete discos de Jorge Ben na gravadora: “Dádiva” (1983), “Sonsual” (1984) e “Ben Brasil” (1986).

Duas décadas se passaram desde então, mas a recente revitalização do sambalanço, gênero que Jorge criou e popularizou, faz com que “Recuerdos de Asunción 443” soe bastante contemporâneo. É o que comprova o suíngue de “Falsa Magra”, mais uma das inúmeras musas anônimas idealizadas pelo poeta – Feminina/ companheira/ sexy/ inteligente/ amante caprichosa/ sutil e maliciosa/ e gostosa/ Falsa Magra, onde está você?.

No disco, Jorge é acompanhado por um time de músicos da pesada que inclui Marcio Montarroyos, Leo Gandelman e Serginho Trombone, entre outros, com arranjos de Lincoln Olivetti. “Zenon Zenon” surge em ritmo de latin jazz falando de um poeta contundente/ muito sutil e contente/ avisou/ que Hermes três vezes o grande/ está com a gente. O poeta Zenon era um amigo de Jorge dos anos 70, ligado em alquimia, que estudou na Sorbonne e vive na Europa até hoje, onde os dois de vez em quando se esbarram quando Benjor sai em turnê.

“O Astro” e “Marron Glacé” foram escritas no final dos anos 70 para as novelas homônimas da Rede Globo, mas acabaram não aproveitadas. A primeira, com um belo arranjo de cordas, remete à fase “Tábua de Esmeraldas”. A segunda explora o naipe de metais e tem letra em espanhol, fato quase inédito na carreira de Benjor (“Maria Luiza”, do disco “Homo Sapiens”, de 1995, era a exceção).

Na medida do possível, Jorge procurou aproveitar os vocais e arranjos originais, acrescentando uma nova camada sonora. Em “Duas Mulheres”, que tem letra inspirada em uma de suas obras preferidas, o “Livro dos Seres Imaginários” do escritor argentino Jorge Luis Borges, ele dobra a voz e dialoga com si mesmo. Mesmo recurso utilizado em “Saint Lebowitz”, em que sobressai a base eletrônica.

O grito de guerra Alô Poeta, Alô Comanche abre “Heavy Samba”, que fala “de um poeta que queria falar com Deus”, referência ao amigo e parceiro Gilberto Gil (com quem gravou o ousado LP duplo “Gil e Jorge – Ogum-Xangô”). Outra homenagem à turma tropicalista é o sambalanço “Miss Mexe Gal”, que foi escrita para a cantora baiana na época em que ela lançou o histórico álbum “Fa-Tal”, em 1971. Gal Costa gravou várias composições de Jorge (como “País Tropical”, “Que Pena” e “Tuareg”) – ALKAHOL- SOLEIRO – EU VOU LHE AVISAR HABIB.

Além dos fãs fiéis, Jorge Benjor vê o público de seus shows se renovar a cada ano.

As novidades não se restringem a “Recuerdos de Asunción”. Os discos que estão sendo relançados trazem faixas-bônus. Em “Dádiva”, foi incluída “Waimea 55000”, que fala “de uma onda de 15 metros que surge uma vez por ano no Havaí”, e traz à tona o lado surfista de Jorge – é, ele já teve até equipe de competição, a “Ben Surf”. Já na versão em CD de “Ben Brasil” foi incluída “Natal Brasileiro”, gravada para um quadro do programa “Fantástico”.

Os três últimos discos de Jorge Ben em sua primeira passagem pela Som Livre trazem algumas pérolas de seu repertório que ficaram esquecidas. O explosivo samba-funk “Eu Quero Ver A Rainha”, em dueto com Tim Maia, que abre “Dádiva”, tem tudo para emplacar nas pistas de dança. Foi à primeira vez que Jorge gravou com Tim Maia, a quem homenagearia mais tarde no sucesso “W/ Brasil”. “Quando escrevi ‘Ive Brussel’, para o disco ‘Salve Simpatia’, quis reunir Caetano, Tim Maia e Roberto Carlos. Não foi possível.

O disco “Sonsual” contou com a participação de músicos do naipe de Antonio Adolfo e Paulo Moura, além de arranjos de César Camargo Mariano. Se no disco “Bem-vinda Amizade” (1981) ele já havia composto um samba-enredo (“O Dia Em Que O Sol Declarou Seu Amor Pela Terra”), dessa vez ele teve a idéia de gravar “Hooked On Samba”, um pout-pourri com os sambas das escolas que desfilaram em 1984.

“Ben Brasil” abre com “Roberto, Corta Essa”, sambalanço que costuma fazer parte do repertório dos shows de Jorge até hoje. “Sasaci Pererê”, originalmente composta para o especial de TV “Pirlimpimpim”, bota pra pular crianças de todas as idades. Em “Procura-se Uma Noiva”, brilha o piano de João Donato, com direito até a um solo aplaudido no final (o momento piano play, como Jorge gosta de anunciar).

Com uma agenda de shows permanentemente lotada, Jorge Benjor pretende incluir em suas próximas apresentações, ao lado dos clássicos eternos que todo mundo sabe de cor, algumas das “novas” canções. Que, lógico, têm tudo para animar a festa. Salve simpatia!

A máscara social como anulação da interioridade: aproximações entre Machado de Assis e Jorge Ben Jor

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RESUMO: Este artigo tem como objetivo realizar uma leitura comparada entre o conto “O espelho: esboço de
uma nova teoria da alma humana” (1882), de Machado de Assis, e a letra da música “O homem da gravata
florida” (1972), de Jorge Ben Jor, no que tange a uma possível interpretação da crítica que esses artistas fizeram
em relação às acentuadas mudanças operadas pela farda de alferes e pela gravata florida, respectivamente, nas
identidades de Jacobina, integrante do conto machadiano, e do proprietário da exuberante vestimenta, presente
na canção benjoriana.
Palavras-chave: Machado de Assis, Jorge Ben Jor, Farda de alferes, Gravata florida
Introdução
O que há em comum entre a literatura de Machado de Assis e a música de Jorge Ben
Jor? Uma leitura cuidadosa do conto “O espelho: esboço de uma nova teoria da alma
humana”, publicado em Papéis avulsos, de 1882, e da letra da música “O homem da gravata
florida”, segunda faixa do álbum A tábua de esmeralda, de 1972, nos levará ao entendimento
dos motivos pelos quais iremos fazer uma leitura comparada entre as obras destes dois
artistas. Machado de Assis e Jorge Ben Jor destacam e criticam, nos textos citados, o
paradigma social que eleva os objetos da condição de acessórios à categoria essencial de
protagonistas das relações interpessoais, além de pautar, assim, as ações do sujeito sob a tutela
do culto desmedido à aparência, em troca de prestígio, fama e glória perante os demais.
Buscaremos, neste artigo, mostrar e avaliar as mudanças operadas por dois objetos – a farda
de alferes e a gravata florida – que afetaram, respectivamente, de forma acentuada, as
identidades de dois sujeitos: Jacobina, integrante do conto machadiano, e o proprietário do

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Doutorando e Mestre em Estudos Literários/Literatura Brasileira pela Faculdade de Letras da Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG). Jornalista, formado pelo Centro Universitário de Brasília/DF (UniCEUB).
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exuberante artigo de vestuário, presente na canção benjoriana. A partir deste ângulo de
análise, vamos à interpretação dos dois enredos.
1. O homem da farda de alferes
O conto machadiano inicia-se pela conversa de cinco homens sobre questões de “alta
transcendência”: juntos tentam resolver os mais árduos problemas do universo, até o momento
em que começam a discutir sobre a natureza da alma. Entre eles, estava Jacobina que, de
início, mantinha-se calado, até que repentinamente intervém na conversa, afirmando, para
espanto de todos, sua tese sobre a existência de duas almas nos homens: a exterior e a interior.
A alma interior “olha de dentro para fora”, enquanto a alma exterior “olha de fora para
dentro” (MACHADO DE ASSIS, 1997, p. 346). É possível relacionar os conceitos de “alma
exterior” e “alma interior” às noções de aparência e essência, forma e conteúdo, máscara e
rosto, vaidade e auto-estima, respectivamente. Machado, no conto “O espelho”, atualiza uma
idéia que reincide em várias de suas obras: é o papel social que dá (in)consistência ao eu. De
fato, quando Jacobina deixa de ser um humilde morador do interior para tornar-se alferes da
guarda nacional, passa então a ter um novo status. Além do prestígio adquirido pelo cargo, o
rapaz assume um lugar privilegiado no seio familiar. Sua mãe e demais parentes, além de
vizinhos, passaram a venerá-lo: ele é o centro de todas as atenções, sobretudo ao se deslocar
para o sítio de tia Marcolina, no qual ocupará um lugar de maior destaque.
No contato com os que o cercam, aos poucos o cargo começa a se sobrepor ao homem:
“E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda hora. Eu pedia-lhe que me
chamasse Joãozinho, como dantes; e ela [tia Marcolina] abanava a cabeça, bradando que não,
que era o ‘senhor alferes’” (MACHADO DE ASSIS, 1997, p. 347). Até esse momento
notamos que Jacobina ainda está ligado ao seu nome de batismo e o diminutivo de afeto
familiar nele presente. Mas tia Marcolina, assim como os outros moradores do sítio, insistiam
em chamá-lo de Sr. Alferes. Tamanha é a força do papel social que a mudança de status
implicará na mudança de nome do personagem. Deste modo, explica-se a declaração de
Jacobina, ao confessar que “o alferes eliminou o homem” (MACHADO DE ASSIS, 1997, p.
348). Se antes a “alma exterior” era o reflexo da “alma interior”, o que levava o provinciano
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Joãozinho a contemplar “o sol, o ar, o campo, os olhos das moças”, este, ao se transformar em
“o homem da farda de alferes”, conforme bem sintetizou Elisângela Aparecida Lopes (2008),
deixou a auto-estima andar a reboque da vaidade proveniente do exercício da patente. Como
assinala Jacobina, importava: “tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do
homem” (MACHADO DE ASSIS, 1997, p. 348). Resulta daí que, em pouco tempo, esse
olhar que vem de fora para dentro é incorporado por ele.
Os dias passados no sítio da tia proporcionavam extremo prazer a Jacobina, que
experimentava os mais diversos privilégios graças ao posto social alcançado. As regalias
atingiram seu ápice com a instalação de um espelho em seu quarto, que representava o lustro
da tradição e da distinção de que agora, com um cargo igualmente distinto, Jacobina fazia
parte. No enredo, o espelho é destacado como legítimo representante do olhar do outro, que se
ausentará, e esta operação servirá de reflexo relativo ao drama identitário vivido pelo
personagem. No conto de Machado de Assis, a função do espelho, tão cuidadosamente
inserida na trama narrativa, será explicitada no momento em que tia Marcolina precisa viajar
em decorrência do estado grave de saúde de uma de suas filhas. Jacobina, então, fica só com
os escravos e, estes, ardilosamente, alimentavam o ego do sinhôzinho: “Nhô alferes é muito
bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô alferes há de casar com moça bonita, filha de
general” (MACHADO DE ASSIS, 1997, p. 349). Distraído com aqueles mimos, que o
deixaram “extático”, Jacobina, embalado pelo sono, não percebe o plano de fuga arquitetado
pelos escravos para a liberdade, que logo iria se concretizar. Longe deles, Jacobina não sabia
o que fazer, mal conseguia preparar o próprio alimento, retratando assim a extrema
dependência do estamento senhorial diante do negro enquanto motor da produção e força de
trabalho submissa.
Sem ninguém para vê-lo como alferes, Jacobina cai numa terrível crise, como se uma
parte de seu ser estivesse se extinguindo: “era como um defunto andando, um sonâmbulo, um
boneco mecânico” (MACHADO DE ASSIS, 1997, p. 349). Sentia-se melhor quando dormia.
Enquanto sonhava, imaginava-se fardado, no meio da família e dos amigos que o
paparicavam, rasgando-lhe elogios intermináveis. Havia até a projeção de que Jacobina
atingiria a tão cobiçada promoção de patente.
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A ironia machadiana toma conta da cena ao dispor o jovem solitário posando fardado
horas e horas diante de um espelho. No início, o contato com aquele objeto decorativo foi
traumatizante, pois Jacobina, sem a farda, não passava de uma figura “vaga, esfumaçada,
difusa, sombra de sombra” (MACHADO DE ASSIS, 1997, p. 350). Após ter se lembrado da
vestimenta, ele se volta para o espelho e o resultado passa ser outro: “o vidro reproduziu então
a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes
que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida
com os escravos, ei-la recolhida no espelho” (MACHADO DE ASSIS, 1997, p. 352).
Sem a farda, Jacobina era obrigado a voltar as suas origens, o que lembrava a sua
antiga forma de identificação – Joãozinho. Tal postura fazia recordá-lo tragicamente da vida
pacata e do anonimato, provenientes da condição provinciana. Como Jacobina só se
reconhecia como alferes, a necessidade de ficar preso à farda se justificava. A imagem que
existia antes se perde, aliena-se em favor da que surge, repleta de satisfações narcísicas. A
alma exterior era a consciência – na verdade a personificação da crítica; elogio dos pais e
depois da sociedade: Joãozinho apaga-se perante o alferes que todos ajudaram a construir. O
fulcro de sua personalidade não se encontrava em sua interioridade, mas na sua farda de
alferes, sem a qual sequer sua imagem no espelho era nítida. A fixação de uma imagem
construída socialmente, representada pela farda, absorve o homem, deixando para trás a face
escura do desejo. Esta, segundo explica Alfredo Bosi com perspicácia, “é o corpo opaco do
medo, da vaidade, do ciúme, da inveja; numa palavra, o enigma do desejo que recusa mostrarse
nu ao olhar do outro” (2003, p. 102-103).
De termo acessório, a farda de alferes passa a constituir o elemento definidor da
essência de Jacobina, formando a auto-imagem e a autoconsciência do protagonista do conto,
não de dentro para fora, mas de fora para dentro, a partir do olhar do outro. Mais vale “ser
percebido” do que “perceber” – eis a linha de conduta daqueles que têm “sede de nomeada”,
como é o caso do homem da farda de alferes. Como bem apurou ironicamente Machado de
Assis, Jacobina, preocupado em demasia com a sua imagem perante os demais, usou e abusou
do marketing pessoal, esquecendo-se das suas origens e querendo subtraí-las para bem
compor a aparência dominante.
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2. O homem da gravata florida
Como vimos, no conto machadiano, o alferes eliminou o homem, visto que a
identidade do personagem vaidoso está atrelada especialmente ao olhar admirador do outro.
Fenômeno semelhante ocorre na canção de Jorge Ben Jor, quando o personagem, após utilizar
a gravata florida, deixa o anonimato e experimenta a sensação de ser bem-quisto pelos outros.
Sugerimos como possibilidade interpretativa compreender a estrutura descritiva da canção
como uma espécie de anúncio publicitário, já que expõe as vantagens de um produto que vai
atrair a curiosidade e a atenção do público, emergindo como novidade, como artigo singular.
Trata-se de uma gravata florida. Em torno, o narrador-anunciante salienta, de forma sedutora
e persuasiva, que o objeto em questão promete fazer do consumidor uma pessoa muito
especial. O exuberante artigo de vestuário vai funcionar como uma espécie de ‘passaporte da
alegria’, já que o usuário, ao desfilar com ela, arrancará aplausos de seus admiradores.
Logo no início da canção, anuncia-se triunfante a chegada do homem da gravata
florida. Em seguida, os detalhes do produto roubam a cena, ficando as características do
personagem diluídas. Quando esses valores são mencionados, eles aparecem intimamente
interligados à descrição do objeto que o veste. Lembrando que não é mencionado o nome do
personagem, tamanho é o seu papel secundário na trama. Ele se comporta como se fosse um
garoto-propaganda e neste caso os holofotes estão voltados para a divulgação do produto que
ele usa. O narrador-anunciante busca assim chamar a atenção de todos para os detalhes da
gravata: “Lá vem o homem da gravata florida / Meu deus do céu…que gravata mais linda /
Que gravata sensacional / Que combinação de cores / Que perfeição tropical / Olha que rosa
lindo / Azul turquesa se desfolhando / Sob os singelos cravos” (BENJOR, 1972). Através da
descrição objetiva e subjetiva da gravata feita por aquele que a observa, percebemos que a
intenção publicitária é promover as vantagens do produto, com o intuito de justificar
racionalmente e, sobretudo, emocionalmente os motivos que levaram o consumidor a aderir
tal mercadoria.
Ao longo da música, há mais atributos do objeto que contribuem decisivamente para a
felicidade do usuário: “E as margaridas, margaridas / De amores com jasmim / Isso não é só
uma gravata/ Essa gravata é o relatório / De harmonia de coisas belas / É um jardim suspenso
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/ Dependurado no pescoço / De um homem simpático e feliz” (BENJOR, 1972). Lembremos
aqui de passagens poéticas produzidas por Sebastião Nunes e Marcelino Freire que elucidam
bem a relação entre felicidade e narcisismo apontada por Ben Jor. Segundo Nunes, “a melhor
garotapropaganda / da publicidade / é a felicidade” (1995, p. 63). Associar a gravata florida
àquele sentimento é um trunfo publicitário importante, porque veicula a oportunidade de
consumo do mencionado produto a experiências positivas. Já o narcisismo encontra respaldo
no fato de que o objetivo da promoção da gravata florida é que ela atue, de forma decisiva, na
vaidade do usuário, “massageando-lhe o ego”. Observando este fenômeno, Freire subverte a
célebre máxima publicitária – “A propaganda é a alma do negócio” – para “A propaganda é a
alma do ego” (2002, s/p). No discurso publicitário, a auto-estima é enquadrada dentro do
processo de vaidade, pois esta leva o sujeito a depender de fatores externos para se sentir
satisfeito. Não se cogita aqui a possibilidade de o homem apresentar condições próprias para
alcançar seus objetivos em conjunturas conflitantes, independentemente de julgamentos
alheios e do sucesso prometido pela propaganda.
Para comprovar estes argumentos, nada melhor do que retomar a canção benjoriana
para ficarmos bem atentos às explicações dadas pelo narrador-anunciante sobre os motivos
que levaram o homem a se tornar simpático e feliz:
Feliz, feliz porque…com aquela gravata/ Qualquer homem feio, qualquer homem feio/Vira
príncipe, simpático, simpático, simpático/ Porque…com aquela gravata/ Ele é esperado e bem
chegado/ É adorado em qualquer lugar/ Por onde ele passa nascem flores e amores/ Com uma
gravata singela/ Com essa, linda de viver / até eu… (BENJOR, 1972).
Nesta passagem, encontra-se uma grande contribuição de Jorge Ben Jor para o estudo
crítico da publicidade e do marketing pessoal. O músico expõe um universo em que a gravata
florida não gravita em torno das projeções sentimentais do homem; é o homem que gira em
torno dos atributos conferidos a ela. O artigo supérfluo é oferecido como mercadoria
indispensável. Propõe-se fazer parecer diferente o que é igual, revestindo, assim, a gravata
florida de uma aura sagrada proporcional a dos totens, que devem ser venerados/endeusados
pelo usuário, pois depende deles para ter melhor sorte. As transformações vividas pelo
personagem da música, a exemplo do alferes do conto machadiano, são frutos de
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interferências externas excessivas que acabam aterrando a interioridade do indivíduo. Assim,
os objetos – a farda de alferes e a gravata florida – passaram por um processo de
personificação, enquanto os sujeitos – Jacobina e o homem – foram gradativamente sendo
“coisificados”.
Na canção de Ben Jor, o produto em questão promete operar verdadeiros milagres,
bem ao estilo de uma propaganda que sabe explorar o fetiche que reveste a mercadoria e não
destaca com a mesma atenção o seu valor de uso. Como num passe de mágica, dentro de um
sistema chamado por Jean Baudrillard de “lógica do Papai Noel” (1973, p. 176)2
, em que a
lenda pesa mais do que a razão, a gravata florida, por si só, é anunciada como o único
elemento capaz de transformar o homem feio em príncipe, além de funcionar como elemento
de atração de pessoas para bem receber e admirar o seu usuário, sendo assim, a responsável
direta pelo fato de o personagem experimentar uma sensação de prosperidade nunca antes
vista, inclusive no campo amoroso. A soberba faz-se presente na publicidade que exalta o ego,
como o do feliz proprietário da gravata florida, objeto que simboliza a chave capaz de abrir
todas as portas do desejo. Deste modo, parafraseando Machado para o contexto da música de
Ben Jor, podemos afirmar que a gravata florida eliminou o homem.
Considerações finais
Machado de Assis e Jorge Ben Jor, cada qual em seu tempo, apontaram e criticaram,
em suas mencionadas obras, um vício ou um hábito social ainda em vigor, que enaltece os
objetos enquanto personagens principais da ordem simbólica, reservando aos sujeitos o mero
papel de coadjuvantes deste sistema. A farda de alferes e a gravata florida ocupam, nos
enredos em questão, a função de máscaras sociais capazes de anular a interioridade dos
personagens que as vestem. A ironia de Machado e o tom galhofeiro de Ben Jor foram
capazes de construir sujeitos que, em busca de prestígio e notoriedade frente aos demais,
deixaram de experimentar autenticamente uma sensação íntima de bem-estar relacionada à
auto-estima manifestada pelo exercício do autoconhecimento. Ao deixarem os objetos
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intermediarem as relações interpessoais e comandarem as suas políticas identitárias, o alferes
acabou eliminando Jacobina, bem como a gravata florida apequenou o seu usuário. Ambos
sucumbiram à tirania do sucesso e da visibilidade. Ao dependerem do aval de observadores
externos e do movimento macabro das coisas sólidas para se afirmarem, os dois personagens
confundiram auto-estima com vaidade e, assim, deixaram de fazer avaliações internas
necessárias para percorrer o desafiante caminho da educação da subjetividade.
ABSTRACT: In this article, we aim to present a connective reading between the short story O espelho: esboço
de uma teoria da alma humana (1882), by Machado de Assis and the lyricsO homem da gravata florida (1972),
by Jorge Ben Jor, concerning the evaluation of the criticism that these artists have made on the changes driven
by the ensign uniform (farda de alferes) and by the flowered tie (gravata florida), which strongly affected,
respectively, the identities of Jacobina, a Machado’s short story character, and the owner of an exuberant
garment, who is in Ben Jor’s song.
Key-words: Machado de Assis, Jorge Ben Jor, ensign uniform, flowered tie.
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