DISCO DE INÉDITAS E RELANÇAMENTOS DE JORGE BEN JOR

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Entre 1978 e 1986, período em que foi contratado da Som Livre, Jorge Benjor – que ainda assinava Jorge Ben – deixou nos arquivos da gravadora, na Rua Assunção 443, algumas preciosidades inacabadas. Duas décadas depois, esse tesouro ressurge em “Recuerdos de Asunción 443”. Com exceção de de “Falsa Magra”, gravada pelo sambista Branca Di Neve em 1987, e “Heavy Samba”, lançada com o título de “Um Poeta Amigo Meu” por Leci Brandão em 1989, todas as outras composições são inéditas e foram retrabalhadas em estúdio por Benjor, que encara o projeto como um disco novo. “São poesias urbanas e suburbanas dançantes, que dão prosseguimento ao que venho fazendo em minha carreira”, define. Paralelamente ao projeto de inéditas, a Som Livre relança, pela primeira vez em CD, remasterizados, três dos sete discos de Jorge Ben na gravadora: “Dádiva” (1983), “Sonsual” (1984) e “Ben Brasil” (1986).

Duas décadas se passaram desde então, mas a recente revitalização do sambalanço, gênero que Jorge criou e popularizou, faz com que “Recuerdos de Asunción 443” soe bastante contemporâneo. É o que comprova o suíngue de “Falsa Magra”, mais uma das inúmeras musas anônimas idealizadas pelo poeta – Feminina/ companheira/ sexy/ inteligente/ amante caprichosa/ sutil e maliciosa/ e gostosa/ Falsa Magra, onde está você?.

No disco, Jorge é acompanhado por um time de músicos da pesada que inclui Marcio Montarroyos, Leo Gandelman e Serginho Trombone, entre outros, com arranjos de Lincoln Olivetti. “Zenon Zenon” surge em ritmo de latin jazz falando de um poeta contundente/ muito sutil e contente/ avisou/ que Hermes três vezes o grande/ está com a gente. O poeta Zenon era um amigo de Jorge dos anos 70, ligado em alquimia, que estudou na Sorbonne e vive na Europa até hoje, onde os dois de vez em quando se esbarram quando Benjor sai em turnê.

“O Astro” e “Marron Glacé” foram escritas no final dos anos 70 para as novelas homônimas da Rede Globo, mas acabaram não aproveitadas. A primeira, com um belo arranjo de cordas, remete à fase “Tábua de Esmeraldas”. A segunda explora o naipe de metais e tem letra em espanhol, fato quase inédito na carreira de Benjor (“Maria Luiza”, do disco “Homo Sapiens”, de 1995, era a exceção).

Na medida do possível, Jorge procurou aproveitar os vocais e arranjos originais, acrescentando uma nova camada sonora. Em “Duas Mulheres”, que tem letra inspirada em uma de suas obras preferidas, o “Livro dos Seres Imaginários” do escritor argentino Jorge Luis Borges, ele dobra a voz e dialoga com si mesmo. Mesmo recurso utilizado em “Saint Lebowitz”, em que sobressai a base eletrônica.

O grito de guerra Alô Poeta, Alô Comanche abre “Heavy Samba”, que fala “de um poeta que queria falar com Deus”, referência ao amigo e parceiro Gilberto Gil (com quem gravou o ousado LP duplo “Gil e Jorge – Ogum-Xangô”). Outra homenagem à turma tropicalista é o sambalanço “Miss Mexe Gal”, que foi escrita para a cantora baiana na época em que ela lançou o histórico álbum “Fa-Tal”, em 1971. Gal Costa gravou várias composições de Jorge (como “País Tropical”, “Que Pena” e “Tuareg”) – ALKAHOL- SOLEIRO – EU VOU LHE AVISAR HABIB.

Além dos fãs fiéis, Jorge Benjor vê o público de seus shows se renovar a cada ano.

As novidades não se restringem a “Recuerdos de Asunción”. Os discos que estão sendo relançados trazem faixas-bônus. Em “Dádiva”, foi incluída “Waimea 55000”, que fala “de uma onda de 15 metros que surge uma vez por ano no Havaí”, e traz à tona o lado surfista de Jorge – é, ele já teve até equipe de competição, a “Ben Surf”. Já na versão em CD de “Ben Brasil” foi incluída “Natal Brasileiro”, gravada para um quadro do programa “Fantástico”.

Os três últimos discos de Jorge Ben em sua primeira passagem pela Som Livre trazem algumas pérolas de seu repertório que ficaram esquecidas. O explosivo samba-funk “Eu Quero Ver A Rainha”, em dueto com Tim Maia, que abre “Dádiva”, tem tudo para emplacar nas pistas de dança. Foi à primeira vez que Jorge gravou com Tim Maia, a quem homenagearia mais tarde no sucesso “W/ Brasil”. “Quando escrevi ‘Ive Brussel’, para o disco ‘Salve Simpatia’, quis reunir Caetano, Tim Maia e Roberto Carlos. Não foi possível.

O disco “Sonsual” contou com a participação de músicos do naipe de Antonio Adolfo e Paulo Moura, além de arranjos de César Camargo Mariano. Se no disco “Bem-vinda Amizade” (1981) ele já havia composto um samba-enredo (“O Dia Em Que O Sol Declarou Seu Amor Pela Terra”), dessa vez ele teve a idéia de gravar “Hooked On Samba”, um pout-pourri com os sambas das escolas que desfilaram em 1984.

“Ben Brasil” abre com “Roberto, Corta Essa”, sambalanço que costuma fazer parte do repertório dos shows de Jorge até hoje. “Sasaci Pererê”, originalmente composta para o especial de TV “Pirlimpimpim”, bota pra pular crianças de todas as idades. Em “Procura-se Uma Noiva”, brilha o piano de João Donato, com direito até a um solo aplaudido no final (o momento piano play, como Jorge gosta de anunciar).

Com uma agenda de shows permanentemente lotada, Jorge Benjor pretende incluir em suas próximas apresentações, ao lado dos clássicos eternos que todo mundo sabe de cor, algumas das “novas” canções. Que, lógico, têm tudo para animar a festa. Salve simpatia!